E não é que podem ter feito o seu melhor disco desde Bug (1988)? É certo que já "Beyond" era bastante acima da média, mas os resultados da reunião de J. Mascis, Lou Barlow e Murph estão a superar todas as expectativas! "Farm" é um conjunto belíssimo de canções agridoces, contendo algumas das melodias e guitarradas mais inspiradas da carreira de Mascis. Sem a necessidade tola de algumas bandas de disfarçarem a schmindiezice com distorção chapa-quatro, Mascis usa o timbre áspero característico da sua guitarra para enfatizar a sua voz e letras de cachorrinho "slacker" abandonado, enquanto Barlow e Murph providenciam sempre o dinamismo adequado à parte rítmica da canção. E tudo isto parece feito como se despachassem as melodias e os nomes das músicas sem pensarem muito. Imbatíveis no jogo do noise-pop-rock, que façam tremer amplificadores por muitos mais anos. E alguém os traga cá em concerto próprio, se fazem favor!
Aquilo que nunca me hei-de esquecer desta é terem pedido ao Stephen Jones que a cantasse para a Catarina Furtado numa gala da SIC. Aposto que ela iria adorar a parte da letra que diz: "You got me to hitch my knees up and pulled my legs apart" ou "You rubbed an ice-cube on my chest snapped me 'til it hurt". Aliás, basta dizer que a primeira frase é "Remember that tank top you bought me". Convém pesquisar o que é um tank top, caríssimos. A música não é sobre amor eterno, e sim sobre uma rapariga que deixa um fotógrafo abusar de si mediante promessas de fama! Mas ainda toca em casamentos. A diferença que faz um refrão!
Se "Mudar De Bina" foi a revelação de um grande talento, "Pata Lenta" é a transcendência, e mais um grande álbum num excelente ano para a música feita em Portugal. Norberto Lobo exibe aqui uma riqueza e sensibilidade melódicas assombrosas, num conjunto de 10 canções (8 originais, 1 tradicional e 1 cover de Bjork) que transformam as sinapses em motivos decorativos dignos da melhor igreja ortodoxa em talha dourada. Mesmo mantendo o seu estilo de fingerpicking a velocidade acima da média, Norberto nunca perde de vista a "canção", mantendo a beleza da melodia como motivo central. Aqui trata-se de uma série de fintas que não esquece que o objectivo principal é a marcação do golo, neste caso dez deles. Independentemente do futuro, esta pegada já é indelével.
Não é o atraso de 20 minutos que meteu pena. Esse até é bastante melhor do que aquilo que é habitual. O que mete pena é pensar que se calhar o concerto começou "cedo" porque não chegariam mais pessoas do que as cerca de 60 que compareceram na ZDB ontem à noite. Os Black Bombaim são das melhores bandas de rock de 2009 me deu a conhecer, e seria com muito gosto que os veria atraír mais gente para o seu espectáculo.
As primeiras partes foram bastante diversas entre si. Os Sunflare começaram pelo drone-rock pesado sem acompanhamento rítmico, mas a partir do momento em que este começou passaram por muitos dos formatos conhecidos. Tanto podiam ser estimulantes como exagerar na duração do concerto. Mesmo assim, saldo positivo. Os Alto vivem do seu vocalista, que exerce igualmente o posto nos Green Machine. As corridas e espasmos pelo palco, chão, ou até exterior do "aquário" não fazem esquecer que a banda toca um garage-rock falho de inventividade, e até repetitivo. Sobra-lhes em entusiasmo...
Os Black Bombaim, paradoxalmente, foram a banda que menos tempo esteve em palco, não chegando aos 40 minutos. Não foi, no entanto, tão paradoxal, se pensarmos que foram de longe aquela em que a energia foi mais intensamente distribuída entre os quatro músicos (guitarra, baixo, bateria e theremin), sobretudo o extraordinário baterista Senra partilhado com os Alto. Rock de enorme espessura, qual frasco gigante de plasticina eléctrica, emanando todas as vibrações stoner-doom-drone-gasolineiras que se pode desejar num concerto destes. Poderei entrar no habitual queixume e dizer que, se a banda fosse estrangeira, a ZDB teria o triplo das pessoas? Obrigado!
EDIT: Tinha-me enganado no nome do baterista. Correcção efectuada.
Desde o anúncio do concerto dos My Bloody Valentine no Festival Rock One no Algarve, no mesmo dia de The Offspring, Tara Perdida e Fonzie, alguns membros do Fórum Sons têm feito o favor de transpôr algumas declarações dos fãs dessa música que, um dia, foi considerada "revolucionária" e "agitadora de mentes", o punk. "Panilas", "Tara Perdida vão dar-lhes uma coça" e "Bora corrê-los à pedrada" são algumas das expressões edificantes que a malta que gosta de se dizer "diferente" da sociedade que não compreende a sua individualidade emprega para falar de uma das bandas mais importantes e revolucionárias dos últimos 30 anos.
Este, em suma, é o "punk" nos dias de hoje. Um género tocado e ouvido, na sua esmagadora maioria, por pessoas que nunca verão nele a liberdade musical que esteve na sua génese, e sim uma desculpa para entornar cerveja enquanto se roçam de tronco nu e suados noutros homens de tronco nu e suados, com quem partilham um desprezo pela "música paneleira". Um género tocado por gente que nunca dará origem a uns Gang Of Four, Public Image Limited ou Wire, porque está mais ocupado a dizer "Sê tu próprio! Bebe bués e veste-te com a roupa igual aos que são como eles próprios!" (perdoem-me a possível estereotipação - mas duvido que não haja muita gente assim). O "punk", hoje, é maioritariamente reaccionário, conservador e grunho, feudo de mongas e betos. Até John Lydon o sabia quando assumiu ser fã de dub e krautrock e formou os Public Image Limited, e talvez as reacções o ano passado em Paredes de Coura também revelem falta de paciência. Há música mais pesada, mais revolucionária, mais animada, mais inteligente, mais representativa dos sentimentos que os Clash (que eram fãs de hip-hop e gravaram um disco dub), os Dead Kennedys, ou os Stooges um dia professaram. Não é à toa que os "resistentes" sejam, provavelmente na sua maior parte aquilo que afirmei. E aqui peço desde já desculpa àqueles que conheço e que foram capazes de avançar para outras músicas sem perder o gosto por bandas que foram importantes na sua formação musical.
Não irei estar presente no Algarve. Não só já tinha decidido que, caso o tempo e o dinheiro permitam, irei ver os Faith No More - que agora têm Low no mesmo dia - como não desejo estar num ambiente pesado e hostil, por mais que goste dos MBV. Desejo apenas que, caso não possam "escapar", que um dia venham tocar a um sítio mais amigável, e que, francamente, toquem a "You Made Me Realise" a 120 decibéis, e mostrem a todos os Taras Perdidas o quão choninhas é a sua supostamente "máscula" música.
- Ahmadinejad no Irão, e os norte-coreanos já mostraram que não têm problemas em continuar com a retórica agressiva, ou em usar os EUA como bode expiatório para os protestos de rua, estando-se totalmente a borrifar para as tentativas de aproximação - Os atentados no Iraque estão a subir de intensidade - Netanyahu cedeu muito pouco, e já há quem considere Obama traídor pelas suas exigências para com Israel - Os lobbies da indústria e da saúde, bem como os congressistas a eles associados, prometem pôr grandes dificuldades às reformas energéticas e do saúde pública - A criação de organismos reguladores do sector financeiro tem também encravado em interesses - Bagram continua num limbo - O fecho de Guantanamo continua problemático pela relutância de senadores e congressistas em aceitar prisioneiros nos seus estados - O desemprego aumenta - Apesar de alguns sinais positivos de crescimento, não parece haver uma ideia para a economia excepto atirar-lhe dinheiro, o que não resolve problemas estruturais
E talvez haja mais. Se estou contente? Óbvio que não. Mil vezes alguém que ao menos tenta do que um retrógrado e insular presidente, que apela àquela direita americana xenófoba. E Obama é um orador sem igual hoje em dia. Mas o mundo demorará muito a recuperar se os resultados ficarem tão aquém das expectativas.
Não há volta a dar-lhe. Este é um péssimo sucessor de "Our Earthly Pleasures". Tudo aqui parece um facsimile desbotado das músicas que ora nos faziam cantarolar como os melhores momentos dos Smiths, ora nos davam vontade de ressaltar entre a estante e a parede. Onde antes os Maximo Park obtinham refrões com propriedades de hinos, agora parecem ter desaprendido a fazê-lo. "Quicken The Heart" é um disco mortiço, mole, abatido. Não se deve desistir das bandas que têm um álbum mau em três. O quarto será muito importante. Seria bom podermos voltar a contar com uns Maximo Park no seu melhor.
Claro que é estranho estar aqui a falar disto. Afinal, nos primeiros dias deste blog, fiz posts duvidando abertamente da capacidade de Michael Jackson dar 10 concertos em Londres, quanto mais 50. Era uma dúvida legítima, penso que ninguém poderá duvidar. E nessa dúvida havia, talvez, o desejo de que a imagem de Michael não fosse mais demolida do que já tinha sido. Não é possível pensar na trágica e desfigurada figura de Jackson a tentar cantar e dançar "Wanna Be Startin Something" sem sentir um embaraço de proporções David Brent-ianas. O certo é que, por mais repugnância por aquilo que Jackson se tinha tornado, nunca poderia querer que isto acabasse assim. Teria esperança que alguma vez pudesse ter uma velhice digna? Seria praticamente impossível. Michael Jackson terá, talvez, morrido por ter sido Michael Jackson, o homem que se transformou de um jovem adulto bem parecido em algo indescritível e trágico. Michael Jackson foi o Elvis Presley da geração dos que nasceram na década de 70. Agora, que nos lembremos da grande música que deixou. RIP.
"You bought the Elephant Man's bones and sent a statue of yourself round the world. RIP you amazingly talented loonball.", Stuart "Mogwai" Braithwaite
Estreia a solo do líder dos Grandaddy, banda cujos três primeiros discos são todos altamente recomendáveis. E para quem não se cansa desse som, este é um disco a não perder. A estreia de Lytle a solo é um disco dos Grandaddy. A voz melíflua soa a Grandaddy (claro), as guitarras tremelicantes e comprimidas soam a Grandaddy, os sintetizadores analógicos brincalhões soam a Grandaddy, as melodias power-pop em ressaca soam a Grandaddy, isto é Grandaddy. Então, como se insere "Yours Truly, The Commuter" na linhagem Grandaddy? Nalguns casos bastante bem, noutros nem tanto. Há músicas que entrariam bem num "Best Of", outras não parecem causar o mesmo impacto elevatório. Este é daqueles discos em que tudo vai depender do grau de exigência para com uma Música Grandaddy.
O azar foi ter feito um refrão tão estridente. As pessoas só ouviam o refrão e pensavam que era um hino patriótico, quando se tratava de uma canção de desencanto, sobre falta de oportunidades, e destinos pré-traçados. Mas ele tanto podia estar a cantar isso como a tabela periódica.
Para ver - a versão acústica com que Springsteen procurou relativizar os danos
Tudo o que sei é o que diz aqui. Por isso nada como ouvir as duas excelentes músicas já deixadas no YouTube. "Harbour Masters" é funk-soul a ritmo dolente, com óptima bateria, e três MCs, Ghostface Killah, AZ e Inspectah Deck, em grande forma. "Ill Figures", com Raekwon, Kool G Rap e os M.O.P. zumbe num misto de ameaça e relaxamento que faz lembrar as músicas do terceiro disco dos Wu-Tang Clan, "The W". Ainda com o acompanhamento dos Revelations a adicionar o funk na proporção certa. Com este e o novo de Raekwon já são dois discos Wu para esperar ansiosamente
São muitos músicos portugueses já conhecidos de andanças como os Coolhipnoise, Spaceboys e Philarmonic Weed, e apresentam-se como a primeira banda de afro-beat portuguesa. Tenho a agradecer ao JG por ter insistido que os ouvisse novamente, depois do single me ter desiludido um pouco devido à sua "limpeza". Em boa hora lhe dei ouvidos, pois no MySpace dei de ouvidos com afrobeat de alto quilate. Faz o que diz no rótulo, como alguns gostam de dizer. O ritmo vem de todos os lados ao mesmo tempo, o som nasce das voz, guitarras, baixo, percussão, sopros, orgão em ondas sucessivas de euforia. Vem da Nigéria, como eles dizem e bem. A importação aqui valeu bem a pena.
A primeira depuração Lulu Blind-Dead Combo parece não ter sido suficiente para Tó Trips. Apesar dos Dead Combo se manterem vivos, talvez seja nesse sentido que possamos interpretar a edição e a música contida em "Guitarra 66". A identidade sonora está lá, no forte tom paisagista da guitarra (único som que ouvimos, tirando um poucochinho de percussão), e nas influências das músicas portuguesas, latino-americanas e norte-africanas. O que se adiciona ao que já se conhecia é um intimismo paciente, que leva o seu tempo a percorrer a melodia, desviando-se quando acha que isso beneficiará o trajecto. Não é um disco imediatista, requer predisposição, o que, ao contrário do que noutros casos acontece, o coloca num patamar elevado. Dizem, afinal de contas, que a viagem é mais importante que a estadia no destino.