quinta-feira, 9 de julho de 2009

Madness "The Liberty Of Norton Folgate"



Este é O disco que ninguém esperaria em 2009. Os Madness eram já por muitos considerados meros peões da nostalgia, destinados a tocar "Our House" eternamente por festivais. Também sempre houve quem pensasse neles como uma banda de simples borga - veja-se como os atrozes Despe&Siga transformaram "Baggy Trousers" no hino de estudante bronco "Bueda Baldas" - passando por cima de canções como "Embarassment". Mas esqueçamos tudo isso, porque aqui temos uma obra-prima. Uma carta de amor à sua amada Londres (ver na Wikipedia a localização da Norton Folgate), repleta de observacionismo e crítica social pungente, onde o humor e o drama convivem (não-)alegremente. Suggs enche o disco de melodias vocais soberbas, enquanto a banda faz óptimo uso das suas raízes com um pé no ska e no reggae, e outro no vaudeville e teatro musical britânico. Este é o grande disco britânico de 2009, cheio de músicas que merecem estatuto de clássicas. Celebre-se Londres em todas as cidades do mundo!

Para ver - "Clerkenwell Polka"

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Música nova - Air



Uma surpresa esta música. Vários anos depois, os Air parece que resolveram revisitar o terreno "maldito" de "10000 Hz. Legend", com os seus sintetizadores de elevada espessura, e o seu ritmo contínuo, devedor da motorika. A melhor notícia é que parece que estamos no caminho para uma visita melhor que a passagem original. A nova música está algures entre os dois excelentes singles, "Electronic Performers" e "Don't Be Light", numa caminhada prog à mistura com a proto-electrónica e exotica/lounge que deu fama a Nicolas Godin e Jean-Benoit Dunckel. Ambição nunca ficou mal a ninguém, apenas o que se faz com ela. Se os Air conseguirem fazer um disco tão bom como esta música, ficaremos claramente a ganhar!

Para ouvir (enquanto possível) - "Do The Joy"

Música nova - Black Heart Procession



"I've seen rats with blood in their eyes (...) I can't sleep tonight". Nada como os bons e velhos Black Heart Procession para animar o espírito de uma pessoa. Desta vez encontramo-los em modo urbano, comandados por uma secção rítmica e piano perto do cinemático/ameaçador, e as vozes de Pall Jenkins e Tobias Nathaniel no seu habitual modo "chamado do além", embora desta vez com uma dicção seca, aproximada de Leonard Cohen. São os Black Heart Procession a caminharem à sua maneira por um território clássico, preservando a identidade que fez deles uma das bandas mais fascinantes a saír do campo do indie-rock menos convencional. O disco novo, "Six", sai a 6 de Setembro, e dele esperam-se novos momentos de imersão paranóica.

Para ouvir - "Rats"

Música nova - Arctic Monkeys

Enquanto ouvia esta música pelas primeiras vezes, foi inevitável procurar a influência que Josh Homme teria trazido aos Arctic Monkeys. Pode-se encontrar algo que Queens Of The Stone Age aqui, nalguma melodia e entoação, mas é muito provavelmente uma comparação forçada. Centrando-me então apenas nos aspectos mais visíveis da música, digamos que estamos em presença de uns Arctic Monkeys a escreverem uma música que poderia entrar na versão vitaminada de "Parklife" dos Blur. Desde logo, a intro da música remete para a banda de Damon Albarn, tendo a música alguns efeitos "carrossel" na guitarra que também não estariam aí deslocados. Acontece, felizmente, que a verve dos Arctic Monkeys permanece intacta, bem como a sua capacidade melódica e energética, ou a letra "Your pastimes consisted of the strange / The twisted and deranged". Entrará no grupo das músicas predatórias feitas por esta óptima banda.

Para ouvir - "Crying Lightning"

terça-feira, 7 de julho de 2009

Música nova - Dizzee Rascal

No caso de "Holiday", não me é de todo possível repetir os elogios que fiz a "Bonkers". Nada contra o talento de MC de Dizzee, sempre assertivo e em cima da batida. Apenas a música faz lembrar os maus tempos do eurorave. Talvez se os Chrome e Calvin Harris tivessem-se esforçado um pouco mais no acompanhamento, e não tivessem recorrido a algo que parece facilitista, isto tivesse resultado numa grande música. Ideia inicial: substituam o refrão:

Para ver - "Holiday"

Música nova - Tyondai Braxton


Para os mais desatentos, trata-se do vocalista/guitarrista dos óptimos Battles, banda que joga nas áreas do pós-rock, hardcore e do math-rock. A sua estreia a solo em forma de álbum está marcada para 15 de Setembro, e "Uffie's Woodshop" é o primeiro avanço. Braxton não esqueceu que é conhecido pela estranheza que imprime às suas canções, e neste caso os ziguezagues da sua banda principal parecem ter sido contaminados pela esquizofrenia e apreço por música de desenhos animados e cinema que distinguem bandas como os Mr. Bungle ou os Flat Earth Society. Contando com uma instrumentação que inclui "kazoos, violins, violas, piano, guitars, choir-y vocals, synths, and even some whistling", "Uffie's Woodshop" é música para ginastas pouco ortodoxos, com algum desejo de praticarem sapateado.

Para ouvir aqui.

Semelhanças - Kings Of Leon

Andam a falar muito no novo lado U2/Coldplay dos Kings Of Leon. E de facto, "Use Somebody" aspira a ser hino de estádio como uma "Where The Streets Have No Name" ou "The Scientist". Mas acho que não acaba aí. Aquela voz rouca e arrastada parece ter outro "antepassado". Aqui fica para que decidam por vós próprios:



Reforços 2009/2010 - 3

Gabriel Obertan extremo ex-Bordeus



Bem vindo a Old Trafford!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Estado musical pouco manso




Ultimamente dou por mim a evitar cada vez mais tudo o que possa entrar na zona do simples "songwriting", folk-pop, indie-folk, indie-pop e afins. Sinto este(s) género(s) como demasiado estagnados, e numa fase muito "adulta", no pior sentido da palavra. Neste momento, apetece-me ouvir aquilo que alguns designam como Música Dessa. Como em "Mas tu ouves música dessa?" Claro que existem excepções, como Bill Callahan. Mas em geral, apetece-me ouvir coisas como a playlist de hoje que teve Jefferson Airplane, Mordant Music & Shackleton, Albert Ayler e This Heat!

Kanye West - Alinhamento

Foi assim no Wireless Festival no Hyde Park de Londres:

'Coldest Winter'
'Paranoid'
'Peace'
'Homecoming'
'Touch The Sky'
'All Falls Down'
'Keep The Receipt'
'Tell Everybody That You Know'
'It's Amazing'
'Can't Tell Me Nothing'
'Say You Will'
'Diamonds From Sierra Leone'
'Jesus Walks'
'Gold Digger'
'American Boy'
'Good Life'
'Heartless'
'Love Lockdown'
'Stronger'

O alinhamento e os relatos, juntamente com o palco escanifobético inventado para esta digressão, a vontade de que Kanye voltasse a Portugal é considerável. Pena que o cachet deva ser alto demais.

Para ver - um medley

domingo, 5 de julho de 2009

Konono Nº1@Museu de História Natural

Mudanças horárias deslocaram os Pocahaunted e os Sun Araw para a ZdB depois da meia-noite, hora que não me dava jeito nenhum ontem. Assim, fiquei-me por aquele que já era o prato principal, os Konono Nº1 (sem desprimor para o gaspacho e couscous disponível a preço amigável no recinto). Felizmente, correspondeu às expectativas, com 80 minutos avassaldoramente rítmicos e hipnóticos, como seria de desejar. O som enferrujado dos três likembes - é um mistério como fazem aquele som - arranha as articulações, construindo melodias e texturas que são parentes afastadas do krautrock, e em conjunto com os ritmos do baterista, percussionista, e "sucata-ista" rivalizam com uma escola de samba. Dois vocalistas, um homem e uma mulher, canalizam a energia recebida com o espírito de festa e comunicação com o público adequados. Não havia grandes invenções. Tocam os likembes, entra a percussão, junta-se a voz, altera-se e combina-se a gosto durante 10, 15, 20 minutos. Viajar por uma floresta, com uma lanterna de strobes, ao som disto seria uma experiência bastante intensa. Assim, foi também intensa, mas ficou-se pelo "apenas" terrena.

Para ver - os primeiros 8:15 minutos do concerto

sábado, 4 de julho de 2009

Reforços 2009/2010 - 2

Michael Owen avançado ex-Newcastle



Bem vindo a Old Trafford. Espero não me arrepender de ter dito isto!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sa-Ra Creative Partners "Nuclear Evolution: The Age Of Love"



Fazer soul com ligação directa aos clássicos dos anos 60 e 70, nos dias que correm, não é tarefa fácil, e os riscos são muitos. Tanto se pode caír no mero pastiche, admirado por quem se satisfaz com simulacros dos “anos dourados”, como as tentativas futuristas podem ficar aquém daquilo que os pioneiros fizeram, ou ainda ficar condenado à irrelevância perante os avanços que o “mainstream” conseguiu nos últimos 10 anos. É tal destreza que obriga, desde logo, a observar com espanto o feito conseguido por Om’Mas Keith, Taz Arnold e Shafiq Husayn naquele que é, para todos os efeitos, o seu primeiro disco de raíz(...)

Continua aqui.

This Heat "Deceit"



Ao segundo disco, os This Heat tornaram o som mais nítido, mas nem por isso menos agressivo. Se aqui as vozes ouvem-se com maior clareza, o despique entre as guitarras e a bateria é um verdadeiro tratado de conteúdos sob pressão. As primeiras parecem estar constantemente a querer explodir com tudo o que lhes apareça pela frente, enquanto as segundas cortam-lhes as veleidades a cada tentativa, quais guardiões do contentor, criando um ambiente de altíssima tensão. As vozes são desapaixonadas, mas ao mesmo tempo com uma raiva, crítica e melancolia subliminares inescapáveis. A música, para os This Heat, é um rastilo de dinamite que a cada segundo tem que ser vigiado para que tudo não se desmorone. Tem as marcas da época em que foi criada, mas também o impacto que faz de uma música relevante em qualquer altura.

Para ouvir - "SPQR"

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Doom "Born Like This"



Já antecipado neste blog, "Born Like This" é mais um óptimo álbum na carreira de Daniel "Doom" Dumille, MC com um dos flows mais idiossincráticos e carismáticos do hiphop actual. Temos aqui mais um disco em que Doom aproveita para cascar à grande nos rappers menos capazes, com metáforas e "put downs" de alta qualidade, que vão, muitas vezes, buscar ideias ao universo culinário. Mas no caso de Doom, a destreza lírica está em pé de igualdade com a maneira como parece estar sempre à beira de engolir as palavras, conseguindo no entanto evitá-lo. O disco conta com produções do próprio Doom, Jake One, Madlib e J.Dilla, sons que oferecem a habitual dose de soul, funk, electronica, exotica e música de desenho animado embalada e oferecida com o pó original, qual vampiro que dorme na terra em que foi enterrado. Ghostface Killah e Raekwon dão sabor extra às histórias de crime e superpoderes, completando um cenário vívido e colorido.


Para ouvir - "Microwave Mayo"