Áparte ter descoberto, para meu desânimo, que o parque da Gulbenkian só abre para os excelsos senhores que queiram ver a Orquestra, a noite no belo anfiteatro foi muito bem passado na companhia dos 4 elementos que formam os Gala Drop nos dias de hoje. Com bateria e três conjuntos de sintetizadores, com ocasional guitarra e/ou percussão, os Gala Drop mostraram já um grande domínio da sua zona musical de eleição, e proporcionaram momentos de saborosa imersão. O ritmo da bateria coloca a música num território declaradamente motorika, mas que está longe de ficar por aí. Como já outros terão dito, o som dos Gala Drop escorre humidade, através de influências tropicais e dub, com uma textura complexa, e ao mesmo tempo altamente evocativa de ritmos, ecos e melodias electrónicas. Foi bem ver cerca de 80 pessoas a assistir ao concerto, embora tenha dado a impressão que alguns só lá estavam por ser Gulbenkian. Uma banda de que valerá a pena seguir a evolução.
"Pretty much every city in North America has an FM radio station boasting a slogan along the lines of "Where Classic Rock Lives!" But really, these are the places where classic rock goes to die, fossilized onto playlists that haven't been updated since the second Black Crowes album. You think it's hard getting attention for your psych-folk-disco-shitgaze collective? Try being an up-and-coming meat-and-potatoes blues-rock band, who are shut out from both hipster-blog discourse and the sort of mainstream media channels that theoretically should be nurturing them. Most people laughed at the Blueshammer scene in Ghost World; me, I just felt sorry for those dudes-- because once they leave that bar, there's really nowhere else for them to go."
João Lisboa: - Ercília Costa "As Primeiras Gravações (1929-1930)" - Maria Alice "As Primeiras Gravações (1929-1931)" - Amália Rodrigues "Amália Secreta (1953-1958)" - Alasdair Roberts "Spoils" - Susanna "Flower Of Evil" - "The Rough Guide To Gypsy Music" (World Music Network) - Regina Spektor "Far"
João Santos: - Sir Richard Bishop "The Freak Of Araby" - Lura "Eclipse" - Yemanjazz "Yemanjazz" - "Mali 70: Electric Mali" (Syllart) - "Panama! 2 1967-77" (Soundway)
Rui Tentúgal: - Arbouretum "Song Of The Pearl" - Grateful Dead "Rocking The Cradle: Egypt 1978" - "Factory Records: Communications 1978-92" (Warner) - Herculaneum "Herculaneum II" - Nathan Davis "If"
Ricardo Saló: - Shawn Lee "Soul In The Hole" - DJ Sprinkles "Midtown 120 Blues" - "Dub Echoes" (Soul Jazz) - Sig "Free Cinematic Sessions
Foram sobretudo os TV On The Radio que me levaram a gastar 50 Euros, mais bilhete de comboio, mais comida para ir ao Alive, e o resultado foi deveras satisfatório.
O dia começou com os The Bombazines, liderados pela bela Marta Ren, e pelo "carismático" Rui "Gon", que deram um óptimo show de funk/soul, conquistando gradualmente auto-confiança e o público que se agrupou debaixo da Tenda Optimus. Destaque para uma óptima versão de "Blue Orchid" dos White Stripes. Seguiram-se os Tiguana Bibles, os quais embora também tenham visto a sua confiança subir ao longo do concerto, foram, em especial a vocalista Tracy Vandal, afectados pelo ruído do concerto dos Machine Head no palco principal.
Segui para a Tenda SuperBock, onde decorreram os dois grandes concertos do dia. Os TV On The Radio não beneficiaram do melhor som possível, mas a entrega física e vocal de Tunde Adebimpe, o doce agudo de Kyp Malone, as texturas da guitarra de Dave Sitek, a excelente secção rítmica de Gerard Smith e Jaleel Bunton, o saxofone perfeitamente integrado de Stuart Bogie dos Antibalas, e aquela música inclassificável, poderosa como a soul, física como o rock ou o funk, proporcionaram um espectáculo de alto nível, com "Wolf Like Me", "Dancing Choose" ou "Young Liars" como pontos altos.
Grande surpresa foram os Klaxons, para quem como eu só tinha ouvido falar numa desgraça que teria sido o concerto deles no SBSR 2007. Confiantes, barulhentos, explosivos, criaram uma comunhão enérgica bilateral (eu escrevi isto?) com o público, com os instrumentos a soltar fogo, e músicas como "Totem On The Timeline", "Magick" ou "Isle Of Her" a fazerem-se ouvir bem alto. Pena que, tal como os TVOTR, o concerto só durasse 50 minutos.
Acabei a noite com os Crystal Castles. Primeira vez que os ouvia, será difícil esquecer tal equivalente musical do explosivo plástico C4. Aqueles sintetizadores matam fascistas, como diria Woody Guthrie. Verdadeiro festim grind-disco-house futurista para derrubar barricadas.
Voltei para casa com a satisfação de ter escolhido bem, apesar da pena de não ter visto Mastodon e outros. Até na comida, o facto de o único sítio sem fila ser o das sandes de leitão não calhou nada mal. Próxima paragem: Sines dia 25.
Para ver - TV On The Radio e Klaxons (as melhores duas músicas do dia)
Jack White e Alison Mosshart exibem novamente o seu amor pelo country-blues, numa canção a fogo lento, acompanhados de uma guitarra acústica com tons de slide, piano esparso, e bateria, num ambiente com as interrogações primordiais de tom sombrio próprias dos blues. A pergunta é simples: "Will there be enough water when my ship comes in?". E é repetida umas quantas vezes. Sempre assim foi quando se jogou neste campo, e a atmosfera só fica mais carregada e tensa quando tal acontece. As duas vozes não podiam ter sido melhor escolhidas, dado que tanto White como Mosshart combinam respeito pela tradição e carisma pessoal na perfeição. O disco do projecto Dead Weather já anda pelos locais de partilha. Aqui está outra promessa de bons resultados.
Danja é protegido de Timbaland, e andou a aprender muito bem as lições de tal personagem. O novo single de Ciara, a auto-intitulada "Raínha do Crunk&B", é um prodígio de pop transmitida algures no ano de 2163. Ou mesmo de 2009, onde somos uns felizardos por podermos contar com a distribuição em massa de algo assim. "Work" tráz consigo uma cornucópia de ruídos electrónicos que se contorcem, explodem e engolem-se a si próprios, como se estivéssemos a assistir à propagação de vírus ao microscópio. Ciara dirige a canção com a sensualidade fria das melhores divas pop contemporâneas, até à explosão eufórica de um refrão que consiste numa simples palavra gritada várias vezes. E ter Missy Elliott como comparsa só ajuda. Entre-se nestes ritmos, e deixe-se a cabeça rodopiar alegremente!
A descrição dos próprios vale mais que mil palavras minhas. Eles dizem que andam desde 2007 na Antena 3 a divulgar "as novas tendências da música urbana de raíz ou inspiração Afro. Mambos como Kwaito, Kuduro, Funk Carioca, Dancehall ou Pretoria House". Parece que vai haver aí disco chamado "Dance Mwangole". E promete acompanhar os Buraka Som Sistema e os Cacique 97 no grupo dos excelentes discos de inspiração africana feitos em Portugal, se o que se ouve no MySpace é exemplo. Compostos por Dj Mpula, Beat Laden, Ikonoklasta, Sacer, Roda e Clementina, os Batida apropriam-se da energia cinética de diversas fontes, devolvendo-a sob formato de uma festa rija do Saara a Pretória, com diversas passagens intermédias. É sujo e vibrante como se exige. E é das coisas novas mais excitantes que ouvi este ano.
Este é O disco que ninguém esperaria em 2009. Os Madness eram já por muitos considerados meros peões da nostalgia, destinados a tocar "Our House" eternamente por festivais. Também sempre houve quem pensasse neles como uma banda de simples borga - veja-se como os atrozes Despe&Siga transformaram "Baggy Trousers" no hino de estudante bronco "Bueda Baldas" - passando por cima de canções como "Embarassment". Mas esqueçamos tudo isso, porque aqui temos uma obra-prima. Uma carta de amor à sua amada Londres (ver na Wikipedia a localização da Norton Folgate), repleta de observacionismo e crítica social pungente, onde o humor e o drama convivem (não-)alegremente. Suggs enche o disco de melodias vocais soberbas, enquanto a banda faz óptimo uso das suas raízes com um pé no ska e no reggae, e outro no vaudeville e teatro musical britânico. Este é o grande disco britânico de 2009, cheio de músicas que merecem estatuto de clássicas. Celebre-se Londres em todas as cidades do mundo!
Uma surpresa esta música. Vários anos depois, os Air parece que resolveram revisitar o terreno "maldito" de "10000 Hz. Legend", com os seus sintetizadores de elevada espessura, e o seu ritmo contínuo, devedor da motorika. A melhor notícia é que parece que estamos no caminho para uma visita melhor que a passagem original. A nova música está algures entre os dois excelentes singles, "Electronic Performers" e "Don't Be Light", numa caminhada prog à mistura com a proto-electrónica e exotica/lounge que deu fama a Nicolas Godin e Jean-Benoit Dunckel. Ambição nunca ficou mal a ninguém, apenas o que se faz com ela. Se os Air conseguirem fazer um disco tão bom como esta música, ficaremos claramente a ganhar!
"I've seen rats with blood in their eyes (...) I can't sleep tonight". Nada como os bons e velhos Black Heart Procession para animar o espírito de uma pessoa. Desta vez encontramo-los em modo urbano, comandados por uma secção rítmica e piano perto do cinemático/ameaçador, e as vozes de Pall Jenkins e Tobias Nathaniel no seu habitual modo "chamado do além", embora desta vez com uma dicção seca, aproximada de Leonard Cohen. São os Black Heart Procession a caminharem à sua maneira por um território clássico, preservando a identidade que fez deles uma das bandas mais fascinantes a saír do campo do indie-rock menos convencional. O disco novo, "Six", sai a 6 de Setembro, e dele esperam-se novos momentos de imersão paranóica.
Enquanto ouvia esta música pelas primeiras vezes, foi inevitável procurar a influência que Josh Homme teria trazido aos Arctic Monkeys. Pode-se encontrar algo que Queens Of The Stone Age aqui, nalguma melodia e entoação, mas é muito provavelmente uma comparação forçada. Centrando-me então apenas nos aspectos mais visíveis da música, digamos que estamos em presença de uns Arctic Monkeys a escreverem uma música que poderia entrar na versão vitaminada de "Parklife" dos Blur. Desde logo, a intro da música remete para a banda de Damon Albarn, tendo a música alguns efeitos "carrossel" na guitarra que também não estariam aí deslocados. Acontece, felizmente, que a verve dos Arctic Monkeys permanece intacta, bem como a sua capacidade melódica e energética, ou a letra "Your pastimes consisted of the strange / The twisted and deranged". Entrará no grupo das músicas predatórias feitas por esta óptima banda.
No caso de "Holiday", não me é de todo possível repetir os elogios que fiz a "Bonkers". Nada contra o talento de MC de Dizzee, sempre assertivo e em cima da batida. Apenas a música faz lembrar os maus tempos do eurorave. Talvez se os Chrome e Calvin Harris tivessem-se esforçado um pouco mais no acompanhamento, e não tivessem recorrido a algo que parece facilitista, isto tivesse resultado numa grande música. Ideia inicial: substituam o refrão:
Para os mais desatentos, trata-se do vocalista/guitarrista dos óptimos Battles, banda que joga nas áreas do pós-rock, hardcore e do math-rock. A sua estreia a solo em forma de álbum está marcada para 15 de Setembro, e "Uffie's Woodshop" é o primeiro avanço. Braxton não esqueceu que é conhecido pela estranheza que imprime às suas canções, e neste caso os ziguezagues da sua banda principal parecem ter sido contaminados pela esquizofrenia e apreço por música de desenhos animados e cinema que distinguem bandas como os Mr. Bungle ou os Flat Earth Society. Contando com uma instrumentação que inclui "kazoos, violins, violas, piano, guitars, choir-y vocals, synths, and even some whistling", "Uffie's Woodshop" é música para ginastas pouco ortodoxos, com algum desejo de praticarem sapateado.