Por convite dos incansáveis André e Crestfall, tenho andado por aqui. Também por cá as audições têm sido, principalmente, de coisas de que já falei pelo blog. Espero recomeçar em breve nas apreciações à música nova que faz falta como plaquetas no sangue.
Já que foi preciso esperar 10 anos até que Mos Def se dedicasse a fazer um disco de MCing, ao menos que não perdesse o jeito que fez de "Black Star" (com Talib Kweli) e "Black On Both Sides" clássicos indiscutíveis. Se é verdade que, por muito boa vontade que se tenha, "The Ecstatic" não alcança o génio desses dois discos, também não deixa de ser um belíssimo álbum, concentrado de boas rimas e flow, e batidas que percorrem anos de música que contém groove, bravado e vitalidade. Mos permanece mordaz, quer a descrever situações na primeira pessoa, quer a falar nas questões sociopolíticas que lhe parecem mais prementes nos dias que correm. "The Ecstatic" é curto e despachado, 16 faixas em 45 minutos, sem com isso parecer ter sido feito ou acabado à pressa. Hiphop que não sai da linha, porque criou ele próprio a sua privada.
Não foi fácil descobrir este vídeo, e é provável que seja retirado dentro de pouco tempo. Fui à procura de um streaming para linkar para aqui, mas não encontrei nenhum. Alguém sabe explicar porque é que a editora pede para tirar o vídeo, por causa de direitos de autor, mas não coloca a música para se ouvir - e conhecer - em nenhum sítio? Depois queixem-se!
Ressequido, praticamente sem forças, é como William "Burial" Bevan parece existir dentro de "Fostercare". A percussão ultra-minimalista, o ranger dos sub-graves, a voz new age/soul transplantada para terra queimada, reminiscente das que povoavam "Untrue", o seu segundo disco, encurtaram de tal forma as distâncias que soam como se estivessem no quarto connosco. Isto já não é nenhuma simples descrição de solidão urbana, como se gosta de atribuir ao dubstep. Isto já se tornou algo muito mais pessoal e transmissível. A personagem já nem para a rua se atreve a olhar. A luz tremelica, e ficamos sem saber se se conseguirá acender ou não.
O PS ganhou, e enquanto começam os discursos, aproveito para elogiar um dos discos do ano. Raekwon The Chef é, depois deste disco, um de muito poucos artistas a dizer que vai fazer uma sequela de um álbum clássico, e a não desonrar a linhagem do mesmo. "Only Built For Cuban Linx 2" é o filme de blaxploitation candidato ao Óscar, de uma nitidez e complexidade de imagem estonteantes. Raekwon, ajudado por muitos Wu-Tang, dos quais se destaca Ghostface Killah, é um tremendo virtuoso das rimas, capaz de descrição de personagens, objectos e situações que obrigam a atenção constante, e recompensadora, por parte dos ouvintes. A blaxploitation, essa, vê-se igualmente na fantástica produção, que consegue recriar o calor de uma BSO clássica e a brisa gelada dos melhores momentos Wu-Tang. Em suma, temos aqui candidato a disco do ano. É bom ter-te de volta, Chef!
Com Chris Hakius ausente da bateria, Al Cisneros (voz e baixo) virou-se para Emil Amos dos Grails para o ajudar a fazer o novo álbum dos Om. E que o som indica claramente tratar-se de um disco dos Om não há qualquer dúvida. Tanto o baixo com barriga de perú de Natal, músculo de touro premiado e passo de boi almiscarado sem pressas, como a bateria que preenche todos os espacinhos estão lá, com a voz de Cisneros a compor o tom ritualista que se exige numa banda que nasceu, originalmente, dos lendários Sleep de "Dopesmoker" (se o nome não diz tudo...). Enfim, por aqui resiste-se a qualquer tentação para acelerar o passo, ou despachar um riff ou batida que seja. A gasolina está formatada (no dia em que isso for possível) para aquela velocidade e assim será. É preciso cuidado perante o perigo de implosões, mas compensa.
"Six" é um álbum de Black Heart Procession Extra-Concentrado. O que significa, claro, que só pode ser excelente. Quem ouve a banda desde o começo (eu foi com "Two") não ficará desiludido, e quem entrar aqui terá a essência do seu som perfeitamente destilada para fruição. Falemos então do som dos Black Heart Procession. As vozes de Pall Jenkins e Tobias Nathaniel são simultaneamente viscerais e límpidas, parecendo ocupar todo o espaço desde o horizonte até junto do nosso ouvido. O acompanhamento, dominado por pianos, orgãos, e secção rítmica, remete para uns Bad Seeds de "Let Love In" sob o efeito de calmantes, mas que não esqueceram que estão ali para exorcizar demónios. Céu e inferno, vida e morte, são presença assídua nestas canções belas de tão perturbadoras. Mais um álbum excelente para a carreira de um dos segredos mais mal guardados da música americana.
Se é verdade que poucas bandas que tenham marcado o rock americano de origens menos mainstream nos anos 80/90 voltaram a criar música (por enquanto, os Pixies e os Jesus Lizard apenas fazem tournés), não é menos verdade que a qualidade que tem saído dos discos dos reformados Dinosaur Jr é superior ao que toda a gente esperaria.
Há duas formas alternativas de encarar a música feita por este colectivo de nome pornográfico (não, não vou dizer). Ou se pensa neles como uma banda que tem pouco a fingir que tem muito a fingir que faz pouco, ou como uma banda que tem muito a fingir que tem pouco a fingir que faz muito. Qualquer que seja a opção escolhida, ao menos não ficam dúvidas, no final da audição, que este grupo de músicos ligados aos Secret Chiefs 3, Sun City Girls, etc, é capaz de impôr ao ouvinte um ambiente inescapável de cerimónia pagã, e tudo isso no bom sentido.
Kyp Malone nunca terá sido tão explicitamente sociopolítico como nesta música. Discos como "Return To Cookie Mountain" e "Dear Science", com os seus TV On The Radio, embrulhavam as suas mensagens em letras mais encriptadas, embora não perdessem impacto com tal método. "Smiling Black Faces" é que, com as referências à vítima de incúria policial Sean Bell, prefere a mensagem directa para atingir os seus objectivos, e não se coíbe de ir buscar inspiração à soul e ao gospel que também fazem parte do repertório dos TVOTR. Kyp exibe uma voz magnífica, como é costume, que aqui vem acompanhada de uma guitarra em constante dedilhar, a qual compõe uma textura de intermediação entre a contenção e a explosão. Um sábio caminhar na corda bamba, que permite o focar da emoção na voz. E Malone é muito bom nessas coisas de emoções.
"This indie hip-hop group has been lauded as a flamekeeper for a certain time in the early 1990s when the Native Tongues held down New York with a sound that was less overtly Afrocentric but more commercially successful. But didn't Q-Tip appear on a Mobb Deep track? Didn't Phife Dawg threaten to ejaculate on someone in at least two of Tribe's most beloved singles? Wasn't De La Soul Is Dead a pitch-black rejection of the hip-hop hippie aesthetic foisted upon them by rock fans and critics? Couldn't Busta Rhymes and Redman, even at their most rah-rah, come and go as they please? Well, you all know that's true, but Brooklynati instead coasts by on a revisionist historical perspective where Tribe, De La et. al were at the forefront fighting gangsta rap not with innovation or originality, but with common decency."
Ambição desmedida, sim. Sem qualquer dúvida. Quem é que lança álbuns triplos em 2009? São cerca de 120 minutos de música que os Oneida oferecem ao público do fim dos 00s, e dentro dela têm muito rock (inclusivé com o prefixo pós), psicadelismo, acidez, crescendos, descendos, e até dub e electrónica distorcida. Com músicas que vão dos 2.5 minutos aos 20, tudo aqui conquista a atenção do ouvinte através de riffs, ruídos e ritmos (RRR) que furam ossos e põem-nos às voltas numa picadora. O tempo aqui passa num instante, enquanto cavalgamos com os Oneida, e não queremos largar até que nos mostrem o destino, ou de preferência as paisagens que percorrem até lá chegar. Isto é rock que não tem medo de olhar para cima, para baixo, para os lados e, mais importante que tudo, em frente.