sábado, 24 de outubro de 2009

Dizzee Rascal "Tongue N' Cheek"



Como pode um artista partir-nos o coração, e ainda assim deixar-nos com um sorriso? Os dois primeiros discos de Dizzee Rascal são obras de génio, pontos em que o grime demonstrou quão excitante e revolucionário pode ser. Entretanto, Dizzee fez um terceiro disco, "Maths And English" que era uma versão um pouco mais amansada dos dois primeiros, e a seguir chamou Calvin "Teclados Eurodance" Harris para fazer "Dance Wiv Me", óptima canção electro-pop-hiphop. Por onde seguir para "Tongue N'Cheek"? Sobretudo pelo lado pop. Hiphop vestido de pop vestida de house, trance, electro, techno, funk, e claro, grime. Salva-se? Aqui está a razão do sorriso. Dizzee é um rapper com flow extraordinário, faça aquilo que fizer, dando à sua pop um groove irresistível. Desta vez quis pôr as pessoas a dançar, e sabe fazê-lo quase tão bem como quando era o "Boy In Da Corner" a soltar os seus demónios.

Para ver - "Dirtee Cash"

terça-feira, 20 de outubro de 2009

The Flaming Lips "Embryonic"



A capa é talvez a melhor do ano. E longe de mim queixar-me de uma mudança de som que torne uma banda mais "esquisita". Tudo estava no lugar para que "Embryonic" trouxesse os Flaming Lips de novo para as bocas do mundo no fim dos 00s. Conseguem-no? Tentam, pelo menos. A psych-pop sinfónica de "The Soft Bulletin" está morta e enterrada. "Embryonic" faz regressar as trips perigosas dos velhos Lips, removendo o tom brincalhão da voz de Wayne Coyne, e substituindo-o por cânticos vindos do tal "outro lado", um lado onde o krautrock e o acid-rock estão vivos e em actividade sísmica. O que faltou foi trazer de lá mais sons. "Embryonic" é demasiado esquelético por vezes. Fica-se a desejar um qualquer tornado de distorção, algo que nos leve também para onde Coyne parece ter tirado inspiração para as letras. Talvez o disco mais frustrante deste ano, será melhor dizer.

Para ouvir - "Watching The Planets"

Yo La Tengo "Popular Songs"



Na fase em que os Yo La Tengo já só deveriam ser os Yo La Tengo, "Popular Songs" mostra-os a tentar ser algo mais para além disso, com sucesso, e a ser exactamente isso, com sucesso moderado. Explique-se. As influências da soul de nomes como Curtis Mayfield é um prazer para os ouvidos, com a voz de Ira Kaplan a soar deliciosamente doce e melosa no meio dos ritmos e cordas, enquadrando tais gloriosas influências sem mácula na música dos Yo La Tengo. Já no que se trata dos YLT mais reconhecíveis, as coisas dividem-se. Se temos músicas feitas de afagantes sussurros de voz e guitarra que estão ao melhor nível da história da banda, por outro os temas mais longos, sobretudo o último, não acrescentam nada e soam supérfluos, quase uma obrigação contratual. E visto que temos 3 músicas nos últimos 35 minutos, as coisas complicam-se. Talvez uma melhor distribuição ajudasse.

Para ouvir - "I'm On My Way"

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Califone "All My Friends Are Funeral Singers"



Se Tom Waits abdicasse da sua voz rouca, pegasse numa guitarra e tivesse um caso incestuoso com a americana em geral, poderia soar exactamente como a banda de Tim Rutilli. Não seria o génio que é, mas os Califone conseguem ao menos manter o ambiente de ferro-velho através de uma série de arranjos que incluem marimbas, violinos, acordeões, e percussões sortidas. Como nos discos anteriores, a dicotomia da voz com os arranjos resulta numa música sussurrante, numa folk que parece querer desfalecer, mas nunca perde o sentido da melodia. Neste disco, os Califone arriscam uma maior convencionalidade, mantendo o equilíbrio com o experimentalismo, e a verdade é que o conseguem lindamente. Um digno sucessor de "Roots & Crowns" feito por uma banda simplesmente diferente.

Para ver - "Funeral Singers"

Música nova - Big Boi



Sob o pseudónimo de Sir Luscious Leftfoot, a metade mais ortodoxa dos enormes Outkast tem álbum a solo na calha, curiosamente antes de Andre 3000 sequer ter um disco planeado, e até agora os sinais são positivos. "Shine Blockas" conta com a colaboração de Gucci Mane, e é, como o nome indicará a todos quanto conhecem este calão, dedicado áqueles que querem impedir as estrelas de exibirem o seu brilho/riqueza. Mas isto pouca importância teria, não fosse o estilo provocador de tonturas do flow de Big Boi, auxiliado por soul, efeitos que remetem para bandas-sonoras vintage, os tic-tic sintéticos do hiphop sulista, tremores que causam relaxamento, e o precioso auxílio de outro rapper, Gucci Mane. O futuro dos Outkast parece em boas mãos. Abram a capota, ou ponham a cabeça fora do vidro, e repitam o refrão.

Para ouvir - "Shine Blockas"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Alice In Chains - "Black Gives Way To Blue"



E pronto, eles voltaram. Eles perderam um vocalista carismático com uma voz do caraças, e atreveram-se a esperar 14 anos e alguns concertos depois antes de gravarem um disco com William DuVall na voz. Como soa DuVall? Soa igualzinho a Layne Staley, ponto final. Estes são os Alice In Chains da voz que parece liquefazer-se no meio dos excelentes riffs metaleiros e arrastados de Jerry Cantrell, e da secção rítmica inquieta de Sean Kinney e Mike Inez. Boa parte de "Black Gives Way To Blue" não desmerece em nada a ascendência de grandes discos como "Dirt" ou "Jar Of Flies", revelando uma confiança e destreza assinaláveis na criação de óptimas canções. Talvez alguns momentos mais acústicos, de homenagem a Staley, pudessem ser alterados. Mas perdoemos-lhes, já que a homenagem é merecida. Apesar do gajo ter fodido a vida a sério.

Para ouvir - "Acid Bubble":

Música nova - Miami Horror

Com um nome como este, claro que não podiam ser americanos. São australianos, e soam a bandas inglesas (New), daquelas cujo nome (Order) não (New) nos escapa (Order). Temos aqui um bonito exemplo de elegantíssimo revivalismo, dance-pop melancólica dos 80s com voz cheia de "longing" (se nós temos saudade, os anglo-saxónicos têm isto). Talvez faça igualmente lembrar outras coisas mais americanas, ou até mesmo os WhoMadeWho do primeiro disco. O que realmente importa é o grau elevado de contágio da melodia e do refrão, que deixa antever coisas boas para este grupo de 4 elementos. Um obrigado ao Hugo Moutinho por me ter apresentado os Miami Horror.

Para ver - "Sometimes":

Sometimes from Miami Horror on Vimeo.

domingo, 11 de outubro de 2009

Jay-Z "The Blueprint 3"



Dependendo da inclinação e desejos de cada um, será possível encontrar mais ou menos falhas nesta segunda sequela do mais histórico dos discos de Jay-Z. Mas a principal será sempre o "contentamento" exibido por Hov. Quase a chegar aos 40 anos, Jay já não sente qualquer necessidade de omitir o facto de gostar da vida de luxo que leva, e de ter um nível de conforto que lhe permite encarar o trabalho e a vida anterior nas ruas de outra forma. É preciso decidir, e eu decidi estar do lado de "The Blueprint 3". Passo a explicar, sendo este um disco de hiphop, preste-se atenção ao MCing. E a verdade é que ninguém sabe mandar o mundo todo dar uma volta caso não fiquem contentes com o que vêm como Jay-Z. Por mais relaxado que soe, nunca deixa de captar a atenção com a sua fluidez. "The Blueprint 3" é pop descontraída, ajudada por uma produção sintética a condizer, que leva Hova feliz para longe de crises de meia-idade. E em "Empire State Of Mind" temos já uma das melhores músicas novaiorquinas que existe.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Por outras paragens

Por convite dos incansáveis André e Crestfall, tenho andado por aqui. Também por cá as audições têm sido, principalmente, de coisas de que já falei pelo blog. Espero recomeçar em breve nas apreciações à música nova que faz falta como plaquetas no sangue.

Sugestões são sempre bem-vindas, claro.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Mos Def "The Ecstatic"



Já que foi preciso esperar 10 anos até que Mos Def se dedicasse a fazer um disco de MCing, ao menos que não perdesse o jeito que fez de "Black Star" (com Talib Kweli) e "Black On Both Sides" clássicos indiscutíveis. Se é verdade que, por muito boa vontade que se tenha, "The Ecstatic" não alcança o génio desses dois discos, também não deixa de ser um belíssimo álbum, concentrado de boas rimas e flow, e batidas que percorrem anos de música que contém groove, bravado e vitalidade. Mos permanece mordaz, quer a descrever situações na primeira pessoa, quer a falar nas questões sociopolíticas que lhe parecem mais prementes nos dias que correm. "The Ecstatic" é curto e despachado, 16 faixas em 45 minutos, sem com isso parecer ter sido feito ou acabado à pressa. Hiphop que não sai da linha, porque criou ele próprio a sua privada.

Para ouvir - "Life In Marvelous Times"

Música nova - Burial

Não foi fácil descobrir este vídeo, e é provável que seja retirado dentro de pouco tempo. Fui à procura de um streaming para linkar para aqui, mas não encontrei nenhum. Alguém sabe explicar porque é que a editora pede para tirar o vídeo, por causa de direitos de autor, mas não coloca a música para se ouvir - e conhecer - em nenhum sítio? Depois queixem-se!

Ressequido, praticamente sem forças, é como William "Burial" Bevan parece existir dentro de "Fostercare". A percussão ultra-minimalista, o ranger dos sub-graves, a voz new age/soul transplantada para terra queimada, reminiscente das que povoavam "Untrue", o seu segundo disco, encurtaram de tal forma as distâncias que soam como se estivessem no quarto connosco. Isto já não é nenhuma simples descrição de solidão urbana, como se gosta de atribuir ao dubstep. Isto já se tornou algo muito mais pessoal e transmissível. A personagem já nem para a rua se atreve a olhar. A luz tremelica, e ficamos sem saber se se conseguirá acender ou não.

Para ver - "Fostercare"

domingo, 27 de setembro de 2009

Raekwon "Only Built For Cuban Linx 2"



O PS ganhou, e enquanto começam os discursos, aproveito para elogiar um dos discos do ano. Raekwon The Chef é, depois deste disco, um de muito poucos artistas a dizer que vai fazer uma sequela de um álbum clássico, e a não desonrar a linhagem do mesmo. "Only Built For Cuban Linx 2" é o filme de blaxploitation candidato ao Óscar, de uma nitidez e complexidade de imagem estonteantes. Raekwon, ajudado por muitos Wu-Tang, dos quais se destaca Ghostface Killah, é um tremendo virtuoso das rimas, capaz de descrição de personagens, objectos e situações que obrigam a atenção constante, e recompensadora, por parte dos ouvintes. A blaxploitation, essa, vê-se igualmente na fantástica produção, que consegue recriar o calor de uma BSO clássica e a brisa gelada dos melhores momentos Wu-Tang. Em suma, temos aqui candidato a disco do ano. É bom ter-te de volta, Chef!

Para ouvir - "10 Bricks"

STOKE 0 MANCHESTER UNITED 2

0-1 Berbatov 61'



0-2 O'Shea 76'



Giggs salta do banco para fazer duas assistências, e empurrar o United até ao primeiro lugar pela primeira vez esta época.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Om "God Is Good"



Com Chris Hakius ausente da bateria, Al Cisneros (voz e baixo) virou-se para Emil Amos dos Grails para o ajudar a fazer o novo álbum dos Om. E que o som indica claramente tratar-se de um disco dos Om não há qualquer dúvida. Tanto o baixo com barriga de perú de Natal, músculo de touro premiado e passo de boi almiscarado sem pressas, como a bateria que preenche todos os espacinhos estão lá, com a voz de Cisneros a compor o tom ritualista que se exige numa banda que nasceu, originalmente, dos lendários Sleep de "Dopesmoker" (se o nome não diz tudo...). Enfim, por aqui resiste-se a qualquer tentação para acelerar o passo, ou despachar um riff ou batida que seja. A gasolina está formatada (no dia em que isso for possível) para aquela velocidade e assim será. É preciso cuidado perante o perigo de implosões, mas compensa.

Para ouvir - MySpace da banda

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Black Heart Procession "Six"



"Six" é um álbum de Black Heart Procession Extra-Concentrado. O que significa, claro, que só pode ser excelente. Quem ouve a banda desde o começo (eu foi com "Two") não ficará desiludido, e quem entrar aqui terá a essência do seu som perfeitamente destilada para fruição. Falemos então do som dos Black Heart Procession. As vozes de Pall Jenkins e Tobias Nathaniel são simultaneamente viscerais e límpidas, parecendo ocupar todo o espaço desde o horizonte até junto do nosso ouvido. O acompanhamento, dominado por pianos, orgãos, e secção rítmica, remete para uns Bad Seeds de "Let Love In" sob o efeito de calmantes, mas que não esqueceram que estão ali para exorcizar demónios. Céu e inferno, vida e morte, são presença assídua nestas canções belas de tão perturbadoras. Mais um álbum excelente para a carreira de um dos segredos mais mal guardados da música americana.

Para ver - "Witching Stone"