quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Música nova - Samuel & The Dragon



Duo de voz e electrónicas formado por Samuel Chase e James Cameron, a sua pop combina uma voz com o toque emocional das melhores músicas lentas dos Coldplay. Mas o acompanhamento está longe de ser rock de estádio. Antes, temos sons que existirão num universo em que "Blue Lines" existe numa única fita deteriorada, e onde alguém já pôs alguns graves e síncopes rítmicas por cima. Ou talvez onde o primeiro disco de Nicolette já foi feito na era em que o dubstep e o grime assumiram as rédeas da descendência do drum n' bass. Seja como fôr, tudo se resume a mais um belo caso de desolação pop electrónica.

A ouvir - MySpace da banda

Músicas incompreendidas - 7

Pink Floyd "Another Brick In The Wall Part 2"

Nem preciso de falar muito. Toda a gente saberá como as crianças e adolescentes do seu tempo adoravam cantar "HEY! TEACHER! LEAVE THE KIDS ALONE!" (por acaso é "Leave THEM kids alone", mas isso pouco interessa). Ora, o que isolado pode parecer um simples slogan panfletário para cantar com amigos, no disco é apenas outra das razões porque a personagem Pink constrói a "Wall" à sua volta. Não é simples rebelião adolescente, é um de muitos traumas. Mas ficará por muito tempo como Aquela dos Pink Floyd.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Música nova - Kelis

É difícil acreditar que "Acapella" possa ter sido produzida pelo mesmo tipo que fez os detestáveis "When Love Takes Over" e "Sexy Chick". Mas aqui, David Guetta esquece-se apenas o suficiente do eurodance mais rasteiro (a propósito, este é o género que NUNCA deverá ter um revival ou uma reavaliação! É mau! Foi muito mau! Ponto final!), oferecendo à voz de Kelis um extracto de disco-house-trance-techno (sim, pode ser tudo) cosmificado, e, como bem indica o Popjustice, herdeiro das experiências de Giorgio Moroder com Donna Summer nos finais dos 70s. Kelis volta a mostrar que é das divas r&b mais inovadoras, adicionando o sufixo "espacial" à sua voz e melodias. Depois de muitas baladas inúteis de Beyonce e do chover no molhado do novo single de Alicia Keys, temos aqui um grande single pop, para lançar satélites até Neptuno!

Para ouvir - "Acapella"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Discos da minha vida - Geoff "Portishead" Barrow

O primeiro disco que me lembro de ouvir: Charles Penrose "The Laughing Policeman"

A música que me fez querer fazer música: Public Enemy "Rebel Without A Pause"

O disco que foi o meu momento-iluminação: Can "Ege Bamyasi"

A canção que nunca perde força: Afrika Bambaataa & The Soulsonic Force "Planet Rock"

A canção que me mostrou como fazer experiências: The Honeycombs "Have I The Right?"

O álbum que o Nigel Godrich me deu num hotel: Radiohead "OK Computer"

A canção que me reduz a lágrimas: Johnny Cash "Hurt"

O disco que foi uma alternativa ao hiphop: Nirvana "Nevermind"

O disco que diz Perfeição Rock: Jimi Hendrix "Experience Hendrix: The Best Of Jimi Hendrix"

O disco que me influenciou mais recentemente: Silver Apples "Silver Apples"

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Kings Of Convenience "Declaration Of Dependence"



Uma banda com o som dos Kings Of Convenience só tem dois caminhos possíveis, e a verdade é que Eirik e Erlend escolheram o mais extremo. Basicamente, estão ainda mais depurados e minimalistas, ao nível de um João Gilberto, como os singles iniciais de “Declaration Of Dependence” já faziam adivinhar. As linhas vocais, sempre de um melodismo irrepreensível, não levantam ondas, induzindo antes um torpor de cadeira vibratória. As guitarras exibem a parcimónia própria da bossa-nova, tão especialistas na criação de belas melodias como as vozes. Este é o forte dos KOC, e não tem mesmo nada que saber. São simplesmente brilhantes artesãos da melodia e da delicadeza. Se “Declaration Of Dependence” adianta alguma coisa em relação ao resto da sua obra, é basicamente o de sabermos que ainda muito é possível fazer com o “template” que lhes deu fama.

Para ver - "Boat Behind"

Música nova - Yeasayer

Enquanto alguns fazem música no lowest dos fis, com sintetizadores de meia-tigela e vozes de muito-pouco-tigela, e dizem que estão a recuperar “memórias mal alinhavadas dos anos 80” (a tal da hypnagogic pop), os Yeasayer não deixaram a coisa por menos. Resolveram soar exactamente como essa tal pop plástica dos anos 80, inclusivé com pózinhos de reggae-ligeirinho. Em suma, os Yeasayer saíram das transviadices de Brooklyn e entraram no mesmo “wine bar” onde ainda tocam os êxitos dos Culture Club. Veja-se, nesse sentido, o timbre sofrido Boy George-ano da voz de (....). Aguentar um álbum inteiro assim seria dose. Para já, é esperar para ver se ficamos com um daqueles “êxitos” para apreciar com aquele piscar de olho que se faz quando se sabe que foi um dos nossos que o fez.

Para ouvir – “Ambling Alp”

St. Vincent "Actor"


"Actor" não é um disco onde se possa facilmente jogar o jogo do "Olhó que cada instrumento está a fazer". O trabalho de Anne Clark parece ter consistido em esbater a nitidez até níveis fortemente impressionistas, e assim criar aquela avant-pop excêntrica, que se torna mais aconchegante que inóspita. O segundo álbum de Clark como St. Vincent (nunca ouvi o primeiro) pode ser visto sob diversos prismas. Ora existem lullabyes de imagens distorcidas, ora recuperações da música de vaudeville/desenhos animados em contexto verso-refrão-verso-e-poeira, ora guitarras e diversa instrumentação invulgar que se consomem umas às outras sem afectar a sensualidade da voz de Clark. Há também algo de profundamente novaiorquino na criatividade desta música, embora uma Manhattan tão surrada e auto-consciente como a dos filmes de um certo meia-leca de óculos de massa. "Actor" dá-nos a escolha de viver um papel de final incerto, mas cheio de cenas cativantes até lá chegarmos.

Para ouvir - "Black Rainbow"

sábado, 24 de outubro de 2009

Dizzee Rascal "Tongue N' Cheek"



Como pode um artista partir-nos o coração, e ainda assim deixar-nos com um sorriso? Os dois primeiros discos de Dizzee Rascal são obras de génio, pontos em que o grime demonstrou quão excitante e revolucionário pode ser. Entretanto, Dizzee fez um terceiro disco, "Maths And English" que era uma versão um pouco mais amansada dos dois primeiros, e a seguir chamou Calvin "Teclados Eurodance" Harris para fazer "Dance Wiv Me", óptima canção electro-pop-hiphop. Por onde seguir para "Tongue N'Cheek"? Sobretudo pelo lado pop. Hiphop vestido de pop vestida de house, trance, electro, techno, funk, e claro, grime. Salva-se? Aqui está a razão do sorriso. Dizzee é um rapper com flow extraordinário, faça aquilo que fizer, dando à sua pop um groove irresistível. Desta vez quis pôr as pessoas a dançar, e sabe fazê-lo quase tão bem como quando era o "Boy In Da Corner" a soltar os seus demónios.

Para ver - "Dirtee Cash"

terça-feira, 20 de outubro de 2009

The Flaming Lips "Embryonic"



A capa é talvez a melhor do ano. E longe de mim queixar-me de uma mudança de som que torne uma banda mais "esquisita". Tudo estava no lugar para que "Embryonic" trouxesse os Flaming Lips de novo para as bocas do mundo no fim dos 00s. Conseguem-no? Tentam, pelo menos. A psych-pop sinfónica de "The Soft Bulletin" está morta e enterrada. "Embryonic" faz regressar as trips perigosas dos velhos Lips, removendo o tom brincalhão da voz de Wayne Coyne, e substituindo-o por cânticos vindos do tal "outro lado", um lado onde o krautrock e o acid-rock estão vivos e em actividade sísmica. O que faltou foi trazer de lá mais sons. "Embryonic" é demasiado esquelético por vezes. Fica-se a desejar um qualquer tornado de distorção, algo que nos leve também para onde Coyne parece ter tirado inspiração para as letras. Talvez o disco mais frustrante deste ano, será melhor dizer.

Para ouvir - "Watching The Planets"

Yo La Tengo "Popular Songs"



Na fase em que os Yo La Tengo já só deveriam ser os Yo La Tengo, "Popular Songs" mostra-os a tentar ser algo mais para além disso, com sucesso, e a ser exactamente isso, com sucesso moderado. Explique-se. As influências da soul de nomes como Curtis Mayfield é um prazer para os ouvidos, com a voz de Ira Kaplan a soar deliciosamente doce e melosa no meio dos ritmos e cordas, enquadrando tais gloriosas influências sem mácula na música dos Yo La Tengo. Já no que se trata dos YLT mais reconhecíveis, as coisas dividem-se. Se temos músicas feitas de afagantes sussurros de voz e guitarra que estão ao melhor nível da história da banda, por outro os temas mais longos, sobretudo o último, não acrescentam nada e soam supérfluos, quase uma obrigação contratual. E visto que temos 3 músicas nos últimos 35 minutos, as coisas complicam-se. Talvez uma melhor distribuição ajudasse.

Para ouvir - "I'm On My Way"

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Califone "All My Friends Are Funeral Singers"



Se Tom Waits abdicasse da sua voz rouca, pegasse numa guitarra e tivesse um caso incestuoso com a americana em geral, poderia soar exactamente como a banda de Tim Rutilli. Não seria o génio que é, mas os Califone conseguem ao menos manter o ambiente de ferro-velho através de uma série de arranjos que incluem marimbas, violinos, acordeões, e percussões sortidas. Como nos discos anteriores, a dicotomia da voz com os arranjos resulta numa música sussurrante, numa folk que parece querer desfalecer, mas nunca perde o sentido da melodia. Neste disco, os Califone arriscam uma maior convencionalidade, mantendo o equilíbrio com o experimentalismo, e a verdade é que o conseguem lindamente. Um digno sucessor de "Roots & Crowns" feito por uma banda simplesmente diferente.

Para ver - "Funeral Singers"

Música nova - Big Boi



Sob o pseudónimo de Sir Luscious Leftfoot, a metade mais ortodoxa dos enormes Outkast tem álbum a solo na calha, curiosamente antes de Andre 3000 sequer ter um disco planeado, e até agora os sinais são positivos. "Shine Blockas" conta com a colaboração de Gucci Mane, e é, como o nome indicará a todos quanto conhecem este calão, dedicado áqueles que querem impedir as estrelas de exibirem o seu brilho/riqueza. Mas isto pouca importância teria, não fosse o estilo provocador de tonturas do flow de Big Boi, auxiliado por soul, efeitos que remetem para bandas-sonoras vintage, os tic-tic sintéticos do hiphop sulista, tremores que causam relaxamento, e o precioso auxílio de outro rapper, Gucci Mane. O futuro dos Outkast parece em boas mãos. Abram a capota, ou ponham a cabeça fora do vidro, e repitam o refrão.

Para ouvir - "Shine Blockas"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Alice In Chains - "Black Gives Way To Blue"



E pronto, eles voltaram. Eles perderam um vocalista carismático com uma voz do caraças, e atreveram-se a esperar 14 anos e alguns concertos depois antes de gravarem um disco com William DuVall na voz. Como soa DuVall? Soa igualzinho a Layne Staley, ponto final. Estes são os Alice In Chains da voz que parece liquefazer-se no meio dos excelentes riffs metaleiros e arrastados de Jerry Cantrell, e da secção rítmica inquieta de Sean Kinney e Mike Inez. Boa parte de "Black Gives Way To Blue" não desmerece em nada a ascendência de grandes discos como "Dirt" ou "Jar Of Flies", revelando uma confiança e destreza assinaláveis na criação de óptimas canções. Talvez alguns momentos mais acústicos, de homenagem a Staley, pudessem ser alterados. Mas perdoemos-lhes, já que a homenagem é merecida. Apesar do gajo ter fodido a vida a sério.

Para ouvir - "Acid Bubble":

Música nova - Miami Horror

Com um nome como este, claro que não podiam ser americanos. São australianos, e soam a bandas inglesas (New), daquelas cujo nome (Order) não (New) nos escapa (Order). Temos aqui um bonito exemplo de elegantíssimo revivalismo, dance-pop melancólica dos 80s com voz cheia de "longing" (se nós temos saudade, os anglo-saxónicos têm isto). Talvez faça igualmente lembrar outras coisas mais americanas, ou até mesmo os WhoMadeWho do primeiro disco. O que realmente importa é o grau elevado de contágio da melodia e do refrão, que deixa antever coisas boas para este grupo de 4 elementos. Um obrigado ao Hugo Moutinho por me ter apresentado os Miami Horror.

Para ver - "Sometimes":

Sometimes from Miami Horror on Vimeo.

domingo, 11 de outubro de 2009

Jay-Z "The Blueprint 3"



Dependendo da inclinação e desejos de cada um, será possível encontrar mais ou menos falhas nesta segunda sequela do mais histórico dos discos de Jay-Z. Mas a principal será sempre o "contentamento" exibido por Hov. Quase a chegar aos 40 anos, Jay já não sente qualquer necessidade de omitir o facto de gostar da vida de luxo que leva, e de ter um nível de conforto que lhe permite encarar o trabalho e a vida anterior nas ruas de outra forma. É preciso decidir, e eu decidi estar do lado de "The Blueprint 3". Passo a explicar, sendo este um disco de hiphop, preste-se atenção ao MCing. E a verdade é que ninguém sabe mandar o mundo todo dar uma volta caso não fiquem contentes com o que vêm como Jay-Z. Por mais relaxado que soe, nunca deixa de captar a atenção com a sua fluidez. "The Blueprint 3" é pop descontraída, ajudada por uma produção sintética a condizer, que leva Hova feliz para longe de crises de meia-idade. E em "Empire State Of Mind" temos já uma das melhores músicas novaiorquinas que existe.