segunda-feira, 6 de abril de 2009

Pearl Jam - Eu Vs JML




Na edição de Sábado do suplemento Actual do Expresso, o estimado JML escreveu um texto especialmente cáustico sobre a, já aqui elogiada, reedição de "Ten", álbum de estreia dos Pearl Jam.

No restante deste post irei apresentar os meus argumentos relativos à defesa do dito álbum, de uma forma cuidada e apoiada em pormenores que me pareçam relevantes, procurando evitar a habitual grunhice dos comentários anti-gajo-que-disse-mal-da-nossa-banda. Para mais, não é nada que não seja habitual entre melómanos blogueiros de outras paragens.

Sendo assim, aqui vai:

- "Mickey Rourke lamenta que o caminho glorioso do glam metal de Guns N'Roses e companhia tenha sido arruinado nos anos 90 com a chegada de Kurt Cobain e do grunge"

O caminho glorioso dos G'N'R não foi interrompido por ninguém excepto pelos próprios. O díptico "Use Your Illusion" deu azo a uma digressão que encheu estádios pelo mundo todo ao mesmo tempo que Nirvana e Pearl Jam atingiam o sucesso. Os Bon Jovi também encheram estádios durante essa época, sobretudo na Europa. O álbum dos Van Halen de 1991 foi um sucesso, tal como "Adrenalize" dos Def Leppard, e os Aerosmith tornaram-se mais populares do que nunca. Outros, como os Motley Crue, sofreram por terem trocado de vocalista e lançado músicas pouco apelativas para as rádios, o mesmo acontecendo com David Lee Roth. Entretanto, a popularidade de clássicos como Metallica, Led Zeppelin, Black Sabbath e AC/DC nunca caiu, conquistando mesmo milhares de fãs entre as novas gerações. Perderam-se uns Tesla, Poison, Cinderella, Dokken, Ratt e afins? Paciência!

- "Do glam metal, os Pearl Jam (e o grunge) excisaram o glam, a agilidade, a exuberância visual, a força rítmica e, pior que tudo, as canções"

Colocando de lado a questão das aparências, em que poderíamos debater quem atingiu estatuto icónico nos dois campos, vejamos as restantes questões. É difícil dizer que deixou de haver "canções", sobretudo se pensarmos que tantas atingiram o estatuto de hinos. É verdade que isso não deixa de ser um facto para muitas tragédias musicais ao longo da história, mas o facto é que não faltavam melodias inspiradas às bandas da altura. Apenas mais derivadas da história do hardcore, hardrock mais duro, punk e metal. Ou até de gente como Neil Young, The Who, The Doors e até The Beatles e Pixies como era o caso dos Nirvana. Quanto à dita força rítmica, é impossível não apresentar como argumento contrário o trabalho de Matt Cameron em "Superunknown" dos Soundgarden, onde a bateria aparece como herdeira directa de John Bonham. E onde há Bonham há força rítmica. Compare-se isto ao anónimo boom-PAH de milhentas bandas dos 80s, e, pelo menos para mim, vê-se onde está a força rítmica.

- "'Ten' é um pastelão disforme e atolado em autocomiseração. 11 capítulos onde Eddie Vedder mastiga sílabas e o resto da banda toca rock virtuoso e castrado."

É muito difícil considerar "Ten" disforme. Por mais "virtuosismo" que se veja, não existe nenhuma canção no disco em que as guitarras sabotem a ideia de canção com princípio, meio e fim. Observemos as mais compridas intervenções das guitarras, como em "Even Flow" ou "Alive". Em nenhuma destas se perde o lado melódico e, diria, cantarolável. Ao mesmo tempo, mais do que autocomiseração, músicas como "Black" ou "Jeremy" são gritos, são rock pronto a rebentar com as artérias, incapaz de ser contido dentro de uma boca humana. O que as bandas que se seguiram, como os atrozes Godsmack, Staind ou Creed, fizeram, foi retirar toda esta ideia de catarse e substituí-la pelo balão de ar rock FM que, aí sim, era herdeiro do glam metal. Quando Scott Stapp cantava "With Arms Wide Open", não era difícil visualizar Jon Bon Jovi a fazer o mesmo.

Em jeito de conclusão, afirmo que, mais do que precursoras de uns Live, Candlebox ou Matchbox 20, os Alice In Chains, Pearl Jam ou Soundgarden (os Nirvana estão excluídos, por não terem sido "alvejados") são herdeiros dos Black Sabbath ou Led Zeppelin (que não são inocentes no reino da autocomiseração). E o mundo fica mais a ganhar com esta espécie de rock, em que a melodia e as grandes canções se conjugam com riffs que rasgam a pele, em vez de de disputar espaço épico com teclados foleiros e baterias unidimensionais. "Ten" é um álbum que merece ser posto ao lado da grande linhagem, e não dos desastres.

2 comentários:

Jorge Manuel Lopes disse...

Nuno, o que me parece ficar subentendido no ressentimento do Mickey Rourke é que o grunge veio substituir o hair/glam-metal como música (e vivência, e imaginário) de eleição naquela parte do mainstream americano mais chegado ao hard-rock.

Independentemente do sucesso que muitas das bandas que mencionas continuaram a gozar nos anos 90 (mesmo que, tirando o caso óbvio dos Aerosmith, quase nenhuma delas tenha relação directa com o hair/glam-metal; e que grupos mais ou menos "extintos" como os Led Zep e os Black Sabbath tenham muito mais a ver com a génese do grunge do que com o que veio antes), parece-me evidente que o grunge impôs novas realidades, ou novos paradigmas, que eram a antítese do regime hair/glam-metal. E mesmo duvidando seriamente que valha a pena conhecer mais do que um punhado de canções dos Poison ou dos WASP, a banda sonora do The Wrestler tem uma frescura a ouvidos de 2009 a que disco algum do grunge chega perto.

O que mais me chocou ao escutar o Ten agora foi, mais do que o som assassino do disco, ficar com a sensação que tudo o que ali está soa a pedaços de gravações de jam sessions, nas quais lá calhou de brotar meia melodia ou um naco de refrão que, quando esticados, ficaram com ar de canções. Canções mal amanhadas que se estendem muito para lá do razoável, na esperança que a insistência produza alguma ilusão de densidade. Espantosamente, resultou.

O grunge apareceu como um antídoto back to the roots para o glam/hair metal e toda a restante música popular ultrasofisticada que dominou os anos 80. Como todos os movimentos back-to-qualquer-coisa, é por definição reaccionário, derivativo, reverente e, neste caso, também egocêntrico. A minha memória diz-me que os Soundgarden eram vagamente mais interessantes do que os Pearl Jam mas, e sem querer ser paternalista, se uma pessoa já tiver em casa uns discos dos Led Zep ou dos Sabbath, para quê perder tempo com estes sucedâneos mal amanhados e sem ponta de imaginação? :-)

Beep Beep disse...

Bom, não tenho comentários adicionais a fazer em relação ao “Ten”, mas não considero que tenha sido um “Back to the roots” no sentido conservador da coisa. Acho, sim, que pegou em diversos tipos de música associados com o “underground” americano – o punk americano mais sujo, o hardcore dos Black Flag e Big Black, o indie-noise-rock de uns Dinosaur Jr, Pixies e Sonic Youth – e conseguiu, ao mesmo tempo, dar-lhe o peso extra dos riffs do metal e melodias de génese pop, criando um género que trazia boas características de vários mundos num todo novo. Como acontece em muitos casos, o conservadorismo começou depois, quando se começa a imitar em vez de lhe ir buscar inspiração. Isso é o que acontece hoje com muita da dita “new wave/post-punk revival” e a torna insuportável – vide post que aqui fiz sobre o último single de Franz Ferdinand.

Quanto à música popular ultra-sofisticada, o grunge, e sobretudo a merda grunge-fm que apareceu depois, não impediram o nascimento do g-funk, da Missy, dos Outkast (que tanto foram buscar aos 70s), do Timbaland, da Kelis/Neptunes, do Jay-Z, da explosão do crunk e do dirty south, da Xenomania, da Britney-dominatrix, etc. Curiosamente, muitos que desejam, quer o regresso dos glam metal, quer o grunge no seu estado “puro”, odeia estas novidades, e apela um regresso aos dias da “música a sério”, em vez desta “música de pretos que não sabem tocar guitarra e fazem música comercial” que existe hoje. ;-)

De qualquer modo, acho que reaccionarismo temos todos um pouco, ou tu não andas a gostar de cenas tipo os novos AC/DC, Metallica e Lamb Of God? :-D E quando os "sucedâneos" são tão bons como os QOTSA, não sou eu que me vou queixar! ;-)